As aventuras de Tintin

Ficha técnica

  • Título original: Les aventures de Tintin
  • Autor: Hergé
  • Ano: 1990
  • Trilha: Ray Parker, Jim Morgan e Tom Szczesniak

“As aventuras de Tintin” surgiu originalmente em 1929, como uma série de histórias em quadrinhos. Foi transposta às telinhas em 1958, mas a adaptação mais conhecida é a de 1990 e é dessa produção que eu vou falar.

Tintin é um jovem repórter viajante que por suas andanças investigativas percorre o mundo sempre ao lado de seu companheiro, o pequeno Milu. Ao longo das aventuras muitos personagens aparecem, mas há os que são regulares: além do cão Milu temos o capitão Haddock e os irmãos Dupond e Dupont.

A série sem dúvida marcou uma geração, começando pela trilha de abertura! Digo por mim, que até hoje é minha referência mais forte de trilhas de ação. Ela também é usada no desenho em momentos de ação, perseguição (nesses casos somente a harmonia) e como tema do próprio Tintin.

A trilha é usada como apresentação dos personagens também em outros casos, como os irmãos Dupond e Dupont. Apesar de detetives, desastrados e desajeitados que são, sempre que estão em cena a dupla é acompanhada basicamente por fagote e piano, em notas bem marcadas com sonoridade semelhante à músicas de circo.

Levando em conta que no caso de um desenho animado até as vozes são escolhidas a dedo, a dublagem também entra nos méritos da sonoplastia. Como há muitos personagens rotativos e alguns poucos dos fixos possuem trilha própria, a caracterização e apresentação de cada um é feita também pela dublagem. O boêmio capitão Haddock tem a rouquidão de anos de embriaguez em alto mar; os vilões geralmente possuem vozes mais secas e falas bem moduladas; e o próprio Tintin, com uma voz clara e firme.

Tenho certeza que a série não agrada apenas os pequenos, pois ela (a sua maneira) tem – e realiza- pretensões de ser uma verdadeira peça de ação. Num geral os efeitos de ambientação e dos objetos são realistas, colaborando com a aproximação do desenho a filmes.

Quanto ao enredo dos episódios, a montanha russa que é a narrativa também é acompanhada pela trilha. Assim, o clima de suspense – e fixação do espectador – se mantém com as constantes viradas das situações.

Para os amantes saudosos do tempo em que Tintin tinha seu horário na TV fica a expectativa do filme que deverá sair aqui no Brasil em 2012. A direção fica a cargo de Steven Spielberg e a trilha será de John Williams, que tem no currículo filmes como “Star Wars” e “Indiana Jones”. Só esperar!

Habana Blues

Ficha Técnica

  • Título original: Habana Blues
  • Direção: Benito Zambrano
  • Gênero: Drama
  • Ano: 2005
  • Trilha sonora: Dayan Abad, Equis Alfonso, Descemer Bueno, Kiki Ferrer, Magda Roa Galván, José Luis Garrido, Juan Antonio Leyva e Kelvis Ochoa

“Habana Blues” é um filme simples que despretensiosamente conta a história dos amigos Ruy e Tito. Os dois são jovens cubanos buscando destaque, reconhecimento e espaço para mostrar sua música (e se tornarem famosos com ela, por que não?!). Ao longo desse percurso dois produtores espanhóis descobrem o talento dos rapazes e é por causa da irresistível proposta de contrato com uma gravadora que surgem os dilemas dos jovens havanos. Ir embora para Espanha significaria deixar para trás família, amigos e propriamente Havana, pois, por motivos políticos, a viagem seria só de ida.

No caso se “Habana” a música tem seu lugar muito bem definido já no roteiro. Logo no começo do filme inclusive tem boas cenas das gambiarras que os músicos (e pode-se dizer que todos) fazem pra conseguirem gravar suas músicas. O setlist da banda varia da música caribenha até o rock, passando por baladas e outras sonoridades. Lógico que tudo com aquela boa pitada caliente que o próprio idioma já se encarrega de dar.

O filme não é um musical, mas poderia muito bem ser. As músicas tratam das histórias dos personagens, seus dramas e a realidade de Cuba. Ruy, por exemplo, tem esposa, dois filhos e luta contra o fim do relacionamento e da própria família. Cansada da vida em Havana, Caridad anuncia a Ruy que fará a travessia ilegal para o continente, levando com ela seus filhos. Após a declaração, Ruy canta para a esposa “Solos tu y yo”, cujos últimos versos dizem:

“Y tengo que dejarte ir, poniendo el mar entre los dos
Pagando el precio de otros que viven de la contradicción
Otra familia que quedó marcada por la separación
Como luchar, con ese sol con la política y con dios”

“Havana Blues” não é um filme que quer falar politicamente de Cuba, mas há uma música que toca no assunto. Traz um batuque marcado pelas congas cubanas misturadas ao rap. São várias vozes se intercalando e crescendo em coro, em tom de protesto, como a voz de um povo. Seus primeiros versos já gritam:

“Todos los negros finos
nos hemos reunido y hemos decidido
no tocar mas rumba”

Certamente é uma daquelas trilhas pra se ter e ouvir com frequência. Enquanto você faz o download de todo o disco, vá esquentando, “habaneando”!

http://www.4shared.com/file/K9zJyxf1/Habana_Blues.htm

Wisky

Ficha Técnica

Título original: Wisky

Direção: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll

Gênero: Drama

Ano: 2004

Trilha Sonora: Pequena Orquestra Reincidentes

O filme se passa em Montividéu, Uruguai, onde vive Jacobo. Desde que sua mãe morreu ele mantém sua vida solitária, tendo como única atividade cuidar de sua fábrica de meias. Marta trabalha como braço direito dele e logo de cara já percebemos a estranha dependência que há entre os dois. A bizarra tranquilidade é alterada quando o irmão de Jacobo – Herman – que mora no Brasil, resolve ir ao Uruguai para um evento ligado a morte da mãe. Marta aceita se passar por esposa do patrão por alguns dias, tudo isso porque a visita reaviva a rivalidade entre os dois irmãos. O filme se desenrola em alguns poucos dias, nos quais Herman, Marta e Jacobo fazem algumas poucas investidas – somente as que eles se permitem – em reconciliação, vaidade e descontração.

Essa história toda acontece de maneira bem silenciosa, fazendo juz ao silêncio entre os personagens. Em inúmeras cenas, o ambiente fala, grita esse silêncio através de suas máquinas e mecanismos. Justamente por isso, as trilhas e efeitos são muito bem usados hora para reforçar a cena, hora para contrariar. Há um momento em os três estão viajando e entra de maneira muito irônica um rock, pois a trilha faz referência à diversão que eles deveriam estar vivendo e não a monotonia que é mostrada. Há outra cena em que eles estão em um bar com karaokê e uma jovem – e desafinada – garota canta uma música qualquer. A cantoria da menina só confirma o desacerto e desconforto dos três, apontando inclusive a situação para o ridículo.

Após mais de uma hora de filme repleto de frieza e escassez expressiva por parte dos personagens, Jacobo se permite instantes de mínima diversão e descontração. Pega uma boa quantia de dinheiro, joga na roleta e ganha! Nesse momento entra uma trilha basicamente de violoncelos, com acordes longos e erráticos, sem marcação clara de ritmo, casando com a liberdade que o personagem se dá somente aí. O timbre também traz à sonoridade um toque de embriaguez, novamente, de “alegria”, liberdade e uma quase epifania.

Após a volta da viagem, Marta está em um táxi voltando para casa e para a vida real, que a trilha indica como talvez não sendo algo bom, pontuando a reflexão por parte da personagem.

E a trilha toda é tão bem pensada que não se pode nem descartar a que entra junto com os créditos. Com a marcação feita somente com uma caixa, num ritmo semelhante ao que conhecemos como ciranda, e uma melodia densa, a música se arrasta como um anúncio de partida de Marta, que não volta mais ao trabalho.

Anos Incríveis

  Ficha Técnica

Título original: The Wonder Years

Criadores: Neal Marlens e Carol Black

Ano: 1988 à 1993

Trilha Sonora: Stewart Levin e W.G. Snuffy Walden

Elenco: Fred Savage, Dan Lauria, Alley Mills, Olivia d’Abo, Jason Hervey, Danica       McKellar e Josh Saviano

Com seis temporadas, a série “Anos Incríveis” é indiscutivelmente uma das melhores já produzidas. Aqueles que se arrepiam de escutar “With a little help from my friends” na voz rouca de Joe Cocker sabem muito bem do que estou falando. É tema da abertura e já traz seus ares de nostalgia com a apresentação de cenas caseiras de uma típica família norte americana do final dos anos 60 em seus momentos de briga, brincadeiras e confraternização. A família em questão é a de Kevin Arnold, um garoto de 12 que está iniciando o high school e passa todas as vivências que se pode esperar de alguém com essa idade: o primeiro amor, o medo dos pais, as brigas com os irmãos e os fiéis amigos.

Tudo isso é narrado pelo próprio Kevin já adulto, e a frequente discordância entre a fala real do menino e essa voz em off, a transforma numa espécie de consciência não atendida do personagem.

A trilha sonora de “The Wonder Years” é absolutamente impecável, digna de amolecer o coração de qualquer nostálgico. Ela faz juz ao período retratado e compõe de maneira muito delicada o perfil e o humor dos personagens. O amor entre Kevin e Winnie é embalado pelo belo dedilhado de “Winnie Cooper’s theme”; a rebeldia da irmã grita através da guitarra de Jimmy Hendrix com “Foxy Lady” ou qualquer outra de Bob Dylan; o tão comum pesadelo de aparecer só de cueca em frente a sala de aula tem a penumbra de “Riders on the storm” do The Doors. E olha que ainda estou só nos primeiros capítulos, ou seja, a lista é gigantesca e fantástica!

Para a tristeza dos fãs da série, ela não foi lançada em DVD. Motivo? A TRILHA SONORA! Com 115 capítulos a quantidade de músicas usadas foi tamanha que hoje é uma encrenca absurda e infindável conseguir os direitos para a reprodução. Há promessas de que esse box ainda sairá, até lá, matemos a saudade dessa família que fez parte de uma geração ao som de Joe Cocker!

As Bicicletas de Belleville

Ficha Técnica

Título original: Les Triplettes de Belleville

Direção e roteiro: Sylvain Chomet

Gênero: Animação

Ano: 2003

Trilha Sonora: Benoît Charest e Mathieu Chedid

 

 

 

O post de hoje talvez seja mais pessoal que nunca, já que “As Bicicletas de Belleville” é uma paixão minha, sem dúvida nenhuma minha animação favorita!

Conta a história de Champion, um garoto que vive com sua avó, a portuguesa madame Souza. Com os mimos da avó, o menino descobre a paixão pelo ciclismo e quando vai participar de uma competição – já adulto – é sequestrado pela máfia para ser literalmente engrenagem de um circuito maluco dos mafiosos. O enredo se desenvolve com a busca de madame Souza e o fiel cão Bruno pelo neto perdido. No caminho conhecem as Trigêmeas de Belleville, três senhoras que nos áureos tempos fizeram muito sucesso em espetáculos musicais.

A estética é de cair o queixo também, pelas composições das imagens, cores, texturas e o traço muito bem marcado do desenhista, com personagens ultra caricatos e expressivos com suas formas e tamanhos. Ou seja, é fantástica do começo ao fim!

O filme é extremamente musical, com pouquíssimos diálogos, somente o essencial – e olhe lá -, as personagens num geral se manifestam muito mais por gemidos, grunhidos e afins do que com palavras de fato, por isso é até possível assisti-lo sem legendas! A ambientação sonora de todos os espaços é feito num grau de detalhismo impressionante e o mais legal, é uma metalinguagem! Tanto madame Souza como as trigêmeas tiram som dos objetos mais comuns possíveis, pode-se dizer até que a música é então um dos personagens principais.

Toda a trilha tende principalmente ao jazz, com uma sonoridade dos cabarés de décadas passadas, usando e abusando de piano, metais e ruídos. É daquelas trilhas que valem a pena ter e ouvir sempre!

Então enquanto você faz o download de todas as faixas, saca só esse trecho do filme. Uma verdadeira aula de sonoplastia!

Marcus Miller

O post de hoje é abre uma série. Será mais um “você sabia…?” A ideia é dar destaque pra galera que faz as trilhas, mostrar que tem muita gente de peso sonorizando peças boas e conhecidas por aí.

Pra começar, nada mais nada menos que Marcus Miller. O cara é o responsável por recriar Brooklyn de 1982 na série “Everybody Hates Chris”.

A série foi produzida de 2005 a 2009 e fala da infância do comediante Chris Rock, narrada pelo próprio inclusive. “Everybody Hates Chris” é bem divertida, mas o papo hoje ainda é sobre Marcus Miller. Músico desde os 8, baixista desde os 13, o cara tem uma vasta discografia e já tocou com nomes como : Miles Davis, George Benson, Aretha Franklin e muitos outros – muitos mesmo, tem até Djavan na lista pra representar os brasileiros.

Ou seja, o cara é referência quando o assunto é jazz, baixo e afins. Então que tal ir atrás pra conhecer um pouco mais do groove de Marcus Miller? Fica aqui um tira gosto, “Power”, primeira faixa de seu disco solo “M²”!

Mr. Smith in Rhodesia (1970)

“Mr. Smith in Rhodesia” é uma composição eletroacústica do poeta, músico e escritor, Ake Hodell. A peça radiofônica é de 1970 e traz uma crítica ferrenha ao regime racista da então Rodésia – atual Zimbábue – ex-colônia britânica. O personagem de quem se fala, “Mr. Smith”, faz referência ao Sr. Ian Smith, primeiro ministro da Rodésia – um branco atuando em tal cargo em um país recém-independente de maioria negra.

Através de um processo de montagem, semelhante ao do cinema, Ake Hodell construiu uma peça de sonoridade crua, agressiva. Ela apresenta uma narrativa que trabalha repetição e pequenas alterações de uma pra outra. Primeiramente, o som de helicóptero e de um apito anunciam a chegada invasiva do estrangeiro. A voz clara e dura, num tom de professor, retrata a doutrinação inglesa sob o espaço africano. O coro que repete as falas do mestre são todo o povo da Rodésia, mas aos poucos uma voz sussurada começa a invadir e subverter as afirmativas dessa doutrinação. É então jogando basicamente com esses elementos que Ake denuncía a situação e mostra – incita – o movimento de revolta.

Uma curiosidade sobre o assunto é que a peça foi proibída de ser veiculada na Inglaterra, afirmando que as crianças do coro não tinham autorização dos pais para gravarem. Foi então que Ake pegou uma mala e algumas cópias de “Mr. Smith” e foi para a Rodésia divulgar seu trabalho.

Sabemos que hoje com os vários programas de edição de áudio disponíveis, a criatividade é o limite para a criação de peças e experimentações sonoras. Mas lembre-se que “Mr. Smith” foi feita em 1970, ou seja, basicamente com tecnologia analógica de gravadores de fita a rolo e gilete, NA RAÇA!

Aproveite a audição!